Entrevista da semana com o vereador André Prado: ‘Uma oposição diferente’

Uma oposição lúcida, que pretende se posicionar sempre a favor da população, tirando proveito da independência de que dispõe para postar-se de maneira imparcial frente às ações do Executivo; fiscalizá-lo com rigor, função em que se considera solitário no início da nova legislatura. André Prado é empresário do ramo de comunicação e marketing. Assumiu seu primeiro mandato à frente da Câmara de Vereadores de Pouso Alegre pelo Partido Verde, com 828 votos. Aos 39 anos, ele assume o papel de oposição em uma Câmara com ampla maioria governista. Para ele, ser minoria aumenta ainda mais a sua responsabilidade no papel de fiscalizador. Ao Jornal do Estado, ele deu a seguinte entrevista:

 

Jornal do Estado: Hoje você se define como oposição?
André Prado: Sim, sou oposição. E deixo isso bem claro, porque eu acho desonesto quando a gente fica em cima do muro e anda conforme se ganha ou não, privilégios, benefícios. Sabe? ‘Ah, eu vou votar a favor porque eu ganhei isso’. Não. Eu vou votar a favor do governo quando eu achar que o governo está correto. Como eu já votei, até agora, em praticamente todos os projetos que vieram do Executivo para cá, tirando um ou dois e um deles bem emblemático, que era o ‘Fundo de Restos a Pagar’, e eu fui contra. Mas o restante tudo que veio do Executivo, mesmo sendo de oposição, votei a favor, porque é o meu jeito de pensar a política. Ser oposição, não precisa ser necessariamente um cara que vai contra tudo que vier de lá. Sou oposição, sim. Mas em nome de uma cidade mais justa para todos.

 

J.E.:Mas não seria possível fugir dessa dicotomia ‘oposição versus situação’?
A.P.: É possível sim. Mas o que eu vejo que as pessoas não sabem fazer essa leitura. Muita gente espera que eu fique dando porrada na administração o tempo todo. Eu não vou fazer isso, porque foge até do meu perfil, da minha personalidade. Eu não sei ser desleal. Inclusive eu já falei até com o prefeito sobre isso em uma reunião que ele teve com todos os vereadores. Após a reunião, eu me sentei ao lado dele e expliquei a situação: ‘Olha, eu não sou uma pessoa desleal. Eu não vou atacar você pessoalmente. Minhas críticas serão direcionadas à administração. Eu vou criticar o prefeito, não o empresário, porque é o que me cabe fazer’. Hoje o caminho que eu escolhi foi o de fazer uma oposição completamente diferente do que vinha sendo feito nas últimas legislaturas: olhar mais para as necessidades da cidade do que para o meu opositor.

 

J.E.: No tocante à legislação municipal, em que setores pretende atuar?
A.P.: Eu gostaria de trabalhar com muita força nas questões ambientais. Primeiro porque eu acredito que o tema nunca foi trabalhado em Pouso Alegre com a seriedade que o assunto merece; e também porque o Partido Verde, o ponto de partida dele é a questão ambiental. Mas o nosso partido em Pouso Alegre ficou meio perdido ideologicamente. Primeiro ele foi formado por dissidentes do PT que, depois, romperam com a maioria dos membros do Partido dos Trabalhadores, mas ficaram ainda atrelados à administração passada. Enfim, ficou muito política a questão. Agora, eu gostaria de ter a liberdade para propor coisas novas, para mostrar a nova cara do partido. Trazer mais as pessoas para junto da política, através do Partido Verde.
Além da questão ambiental tem todos os outros setores fundamentais como Saúde, Educação, com os quais sempre devemos ter atenção pois têm desdobramentos importantes sobre a vida das pessoas.

 

J.E.: O vereador já trabalha em algum projeto específico?
A.P.: Na área ambiental tem dois. Um que já bateu e voltou no jurídico: para cada veículo zero quilômetro vendido existiria a contrapartida de se plantar uma árvore na cidade para diminuir o impacto que esse veículo causará ao meio ambiente. Eu e o vereador Dr. Edson estamos reformulando este projeto para que ele possa passar pelo jurídico.
Um outro que estou escrevendo trata da impermeabilização do solo. Pouso Alegre tem muito asfalto e as pessoas acham que isso é símbolo de modernidade, quando, na verdade, o asfalto aumenta a temperatura da cidade e impede que a água seja escoada da forma correta. Então, vamos propor que os novos bairros da cidade sejam calçados com bloquetes intertravados, que permitam o escoamento da água e diminua a temperatura da cidade. Tem ainda uma série de propostas que estamos estudando a partir de exemplos que deram certo em outras cidades. Não tenho a intenção de inventar a roda, quero trazer para o município experiências testadas e aprovadas em outras localidades.

 

J.E.: Como o senhor pretende fiscalizar os atos do Executivo?
A.P.: Essa é, para mim, a função primordial do vereador. Por quê? Por que lei a gente tem um monte na cidade. Mas muitas delas não são cumpridas porque não temos fiscais para acompanhar. Então não adianta nós virarmos uma máquina de fazer leis, sendo que a cidade mal cumpre as que já existem. Eu tenho colegas aqui que estão colocando leis atrás de leis para fazer com que a cidade também melhore, porém eu tenho me reservado mais à função de fiscal, especialmente porque o meu papel como oposição tem sido muito solitário. Um pequeno número de vereadores se juntou a mim nessa tarefa. No papel são quatro, mas, na prática, a gente nunca sabe. Entendo que apenas eu tenho feito críticas mais duras à administração.

 

J.E.: Esse cenário aumenta sua responsabilidade?
A.P.: Com toda certeza. É assim: se já tem um monte de vereadores fazendo leis e nenhum fiscalizando, então eu vou fiscalizar. Porque se eu não fizer, ninguém vai fazer ou pouquíssimos irão fazer. Eu tenho me dedicado muito a esse flanco da fiscalização, mas não tive muito sucesso, porque a prefeitura não se deixa ser fiscalizada. Eu já pedi um organograma na minha primeira sessão, se eu não me engano, de cargos e salários, e até hoje ninguém me deu uma satisfação. Essa ‘caixa preta’ que eles dizem que existia no governo anterior, mas que não foi aberta e eu não sei se existe, mas eles já estão criando a ‘caixa preta’ deles.

 

J.E.: Na sua opinião, como os vereadores podem atuar para desfazer a imagem ruim que as pessoas, de um modo geral, têm da política?
A.P.: Eu posso falar por mim, não posso falar pela classe toda. Eu tenho me aproximado das pessoas. Tenho me colocado à disposição. Eu fui colocado em grupos de whatsapp, por exemplo, onde estão as professoras da rede municipal todas os vereadores. Ali, o que me é perguntado, eu respondo imediatamente. Quando eu tenho dúvida, eu vou pesquisar para poder entregar uma resposta satisfatória. Durante a manifestação contra a reforma da Previdência, um professor subiu no caminhão de som e começou a falar mal dos vereadores, questionando onde eles estavam que não iam ao microfone defender a população. Eu fui o único vereador que subiu lá, meio que até inconscientemente, porque eu falei: ‘Bom se estão me chamando eu tenho que subir ali’. É assim que eu tenho agido, eu tenho atendido as pessoas. Se eu não posso resolver tudo eu ao menos posso dar atenção, correr atrás do jeito que é possível correr. Porque eu acho que a população percebe o político como um cara distante, inacessível, que só está próximo no momento da eleição. Então o que eu tenho feito? Estou próximo da população.

 

J.E.: O que a população pode esperar do seu mandato?
A.P.: Muito trabalho. Muita luta pelos servidores principalmente que são pessoas que carregam a cidade nas costas. Não vou baixar minha cabeça em momento algum, independente de quantos estiverem ao meu lado. Eu tenho um papel aqui a cumprir e todos os dias eu levanto com a ideia de fazer o melhor dentro desta Casa. Podem esperar de mim um cidadão a serviço do seu povo.