Entrevista da semana: “É preciso moralizar a política”

O vereador Adriano Pereira Braga concluiu o curso de farmácia na Universidade São Francisco, em Bragança Paulista (SP), e se alistou no Exército Brasileiro. Serviu as forças armadas por oito anos como oficial farmacêutico. Pode-se atribuir à formação militar o caráter enérgico pelo qual o político se notabilizou em seu primeiro mandato, quando fez a mais contundente oposição ao governo do ex-prefeito Agnaldo Perugini. Quando assumiu a presidência da Câmara, no início deste ano, depois de se consagrar como um dos dois únicos vereadores reeleitos nas eleições de 2016, não havia como esperar menos. Palavras como austeridade, rigor e disciplina permeariam o vocabulário do dono da cadeira principal da Mesa Diretora do Legislativo.

 

Os trabalhos na Casa começaram já em janeiro. De lá para cá, foram cinco sessões extraordinárias e outras seis ordinárias e um acordo tácito entre os parlamentares: dedicação máxima ao trabalho para superar a imagem ruim que consideram ter sido deixada pela última legislatura. A tarefa não é fácil. O descrédito de políticos e da política é enorme. Não há sequer espaço para otimismo, mas “é preciso moralizar a política”, esta será a maior contribuição que os representantes escolhidos pela população para o atual período podem dar ao município. No gabinete da Presidência, na Câmara de Vereadores de Pouso Alegre, o vereador Adriano da Farmácia falou com exclusividade ao Jornal do Estado:

 

Jornal do Estado: Como um dos dois únicos vereadores reeleitos para atual legislatura, o aparente clamor popular por renovação na Câmara deve influenciar a forma como o senhor pretende conduzir os trabalhos na Câmara?

 

Então, nós vereadores, temos que partir do seguinte princípio: estamos na base do sistema político. É nosso dever começar a moralizar a política através de nossos gestos e ações. É preciso moralizar a política.

 

Adriano da Farmácia: Nós temos que separar política da administração pública, que seria a minha administração como Presidente. Na política em si, estamos fazendo de tudo para que possamos colocar os projetos tanto de oposição quanto de situação, desde que seja benéfico para a população. Se começarmos com brigas e richas, não vamos chegar a lugar nenhum. Vai acontecer igual na outra gestão: eles tinham um grupo formado e os projetos que vinham, normalmente, eram votados a toque de caixa. Quem mais perdeu com isso foi a população de Pouso Alegre. Na minha gestão, não terá essa dificuldade com questão de ser oposição ou situação. Todos serão tratados da mesma maneira, a não ser que seja uma coisa que possa influenciar, inclusive na gestão pública, de termos algum problema na questão de erário público, que possa prejudicar a transparência da Câmara.

 

JE: Na última Legislatura, você fazia parte da oposição, hoje integra a base aliada. O que muda na sua postura?

 

A.F: O presidente da Câmara, apesar de fazer parte do governo, tem que ser bem imparcial, tem que fazer a coisa certa. Se o governo cometer erros vai ser colocado nesse plenário. Não vou fazer questão de barrar nenhum de oposição que queira falar o que deve ser dito na tribuna. Pretendo ser muito transparente nesta questão. As coisas têm de ser certas e transparentes para a população de Pouso Alegre. Não vou fazer essa politicagem suja, onde oposição segura projetos de situação ou vice e versa. Vo agir para cumprir o que está na lei.

 

JE: Seu primeiro ato administrativo foi anunciar cortes de gastos e de cargos. Qual a análise que o senhor faz dessas medidas?

 

A.F: Eu, como vereaodor vindo de outro mandato, observei que a Câmara de Pouso Alegre tinha vários cargos de confiança. Temos sim uma Câmara com vários setores, que necessitam de profissionais capacitados. Mas, em alguns casos, as indicações contemplavam partidos políticos e não as necessidades da Câmara. Na minha gestão, o que que eu estou fazendo como gestor: redução de custos. Acho importante isso nesse momento difícil pelo qual estamos passando, com a dificuldade de ver a credibilidade desta Casa muito baixa. Então, para resgatar tudo isso, é preciso moralizar. E isso tem que partir de nós, como representantes do povo. De 23 cargos comissionados, eu cortei para 7 cargos, o que não influenciou em nada. Eu poderia trabalhar até com cinco, porque os sete são altamente capacitados. E estamos valorizando o funcionário público. O que eu fiz? Simplesmente peguei o funcionário público, agreguei um pouco mais de serviço e coloquei para gerenciar as pessoas comissionadas, da minha responsabilidade, para fazer a gestão do meu mandato.

 

JE: A economia vai resultar em devolução de recursos à Prefeitura? Se sim, como evitar que isso interfira na de alguma maneira na independência entre os poderes?

 

A.F: Não podemos esquecer que temos aqui na Câmara uma gestão independente do Executivo. Temos tesouraria, temos um patrimônio a cuidar, quadro de funcionários para manter. É preciso garantir, antes de tudo, esta manutenção. É como se tivéssemos uma prefeitura de pequeno porte. Temos aqui vários setores que equivalem às secretarias do Executivo. É importantíssimo darmos essa manutenção, que nas gestões anteriores não foram dadas. Eu estou concluindo isso pelo sucateamento que está o prédio público em vários setores. São portões quebrados, goteira, eletricidade que vive caindo. Toda essa economia vai permitir que eu possa dar a manutenção necessária, a suprir os gabinetes dos vereadores e fazer com que nós possamos sentar com o Executivo e ver onde seria melhor aplicado esse recurso que seria economizado. Essa foi a conversa que fizemos com o prefeito Rafael Simões e todos os vereadores em questão de nós fazermos economia, ajudar o município, mas que nós possamos fazer as indicações para onde esses recursos serão aplicados. Por exemplo: há necessidade de uma creche no bairro Jatobá. Então há um compromisso do prefeito nessa devolução do dinheiro economizado pela Câmara ser aplicado nessa comunidade em contexto de todos os vereadores.

 

JE: Como garantir que a Câmara dialogue com a comunidade e, de fato, consiga entender o que a população espera dos seus representantes?

 

A.F: As sessões itinerantes é uma opção (reuniões organizadas pelos vereadores nas comunidades). Na útlima legislatura, praticamente não tivemos. Esse contato direto com o povo, nas gestões anteriores nós não tivemos. Eu, como vereador, tive, andando pela rua, indo às obras públicas fiscalizar, visitando bairros, fazendo reuniões. Por isso, na minha presidência, vamos dar todo o aparato para que os vereadores possam ir até à comunidade discutir e levar os problemas para o Executivo. Se não eles (a prefeitura) não vão ficar sabendo o que está acontecendo na nossa cidade. O fim da linha, junto à população, é função do vereador.

 

Essa “caixa preta” já começou a ser aberta e nós temos que apurar. Se deixarmos passar, seria uma grande irresponsabilidade.

 

JE: O prefeito Rafael Simões foi eleito com a promessa de abrir a ‘caixa preta’ da Prefeitura. Nas últimas semanas, o Executivo e os vereadores se reuniram e anunciaram duas CPIs, uma referente às obras de ampliação das galerias pluviais do Centro, outra referente à contratação de uma empresa terceirizada na gestão Perugini. Em que medida a Câmara pode se concentrar nessas investigações sem paralisar as votações e a fiscalização do atual governo?

 

A.F.: Estamos com as duas CPIs sob a análise do jurídico. As duas denúncias vieram do Executivo, que já começou a fazer as apurações e detectou alguns indícios (de irregularidades). Essa “caixa preta” já começou a ser aberta e nós temos que apurar. Por que nós temos que apurar? Se deixarmos passar, seria uma grande irresponsabilidade. Quer dizer: você vai lá, comete a irregularidade e fica sem punição? Eu acho que é uma afronta muito grande à população nós passarmos batido a respeito disso. Não podemos não. E também não podemos esquecer da gestão do novo prefeito. Não podemos esquecer dos projetos de lei, nem das sessões itinerantes, de atender a população. É um trabalho muito árduo, mas é a função do vereador. Nós fomos eleitos para isso. Nós vamos apurar sim.

 

JE: Em um momento político, social e econômico tão delicados no país, qual a contribuição que os vereadores podem dar para iniciarmos uma recuperação?

 

A.F: As ações do político e a maneira como é conduzida a política precisam ser revistas. A população vai lá, deposita sua confiança naquela pessoa, confia que ela vai lutar pelo município, que vai lutar por melhorias, que vai lutar por projetos, mas, chega na metade do caminho, o cara vira a casaca. A pessoa para ser político tem que ter o compromisso com a comunidade primeiro, não por interesses financeiros, de cargo. Hoje, a política é feita, muitas vezes, por pessoas com esse pensamento. Por isso que as pessoas boas não querem participar da política, porque já começa com uma corrupção muito grande, de dentro da casa das pessoas. Às vezes o cara quer ganhar para vereador por causa do salário que ele vai receber, não pela função de representar o povo. Mas mesmo nesse contexto atual em que o Brasil está, com essa imoralidade, as pessoas continuam a votar em políticos que participam do mal feito. Temos o exemplo do próprio Fernando Color de Mello, que foi presidente, foi cassado, mas saiu do cargo e voltou como senador mais bem votado. O povo tem a memória muito curta. Então, nós vereadores, temos que partir do seguinte princípio: estamos na base do sistema político. É nosso dever começar a moralizar a política através de nossos gestos e ações. É preciso moralizar a política.