Entrevista da semana: Vereador Rodrigo Modesto

Na sessão da Câmara desta semana, o vereador Rodrigo Modesto (PTB) decretou: “A política como a conhecemos acabou e se insistirmos nela vamos pagar a conta logo ali na frente”. Em mais um apelo por bom-senso, o parlamentar conclamou os colegas a se unirem para, juntos, construírem a nova política, pois foi revanchismo e o ódio da cultura do “nós contra eles” que levou o país ao fundo do poço. A manifestação do vereador, que ocupa também a vice-presidência da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), é mais uma demonstração de clareza daquela que já se transformou na voz mais sóbria do legislativo municipal.
Em tempos cinzentos, o bom-senso do advogado de 38 anos tem se destacado na atual legislatura. É com comedimento e serenidade que ele começou a tocar uma revisão do emaranhado de mais de cinco mil leis que tornam a legislação municipal “obscura, estranha e complexa”, num trabalho iniciado por ele e que hoje reúne Executivo e Legislativo em um esforço para simplificar e tornar mais factível o cumprimento das leis. A força-tarefa exemplifica o que o vereador defende que deve ser a conduta dos parlamentares para resgatar a credibilidade da política: um trabalho sem descanso, um tijolo após o outro para recuperar o respeito da população. Ao Jornal do Estado, Rodrigo Modesto concedeu a entrevista que segue:

 

Jornal do Estado: O senhor acredita que foi eleito em meio ao desejo de mudança que havia e há na sociedade? Se sim, quais as primeiras impressões a respeito da Câmara agora que faz parte dela? Com base no pouco que já viu, acredita que essa mudança é possível?

 

Rodrigo Modesto: A vida é uma mudança né? A eleição de 2016 representava um desejo de mudança, naquele momento, que hoje não é mais aquilo que a gente acreditava que era. A gente acreditava que havia um grupo político corrupto e mais alguma coisa além desse grupo político, mas hoje nós vemos que é tudo a mesma coisa. Todas as movimentações que tivemos em 2015, com as passeatas, toda aquela energia que culminou na nossa vitória para o Legislativo já mudou de novo. Hoje, nós estamos vivendo uma outra mudança.
Hoje, a gente praticamente desacreditou dos políticos, principalmente aqueles mais antigos, que estão em Brasília e em Belo Horizonte. A partir daí, nos voltamos para a nossa cidade e vemos um Legislativo novo, tentando se achar dentro desta nova perspectiva. O Legislativo é mais importante até que o Executivo, porque ele representa uma situação de proporcionalidade do voto, de segmentos, que de forma unida compõem os 15 vereadores. Então eu vejo que nós estamos em uma travessia realmente, sem saber…. hoje posso te dizer isso, sem saber onde vamos chegar, pois não sabemos o que pode acontecer amanhã. Mas, em Pouso Alegre, nós estamos tentando, aprendendo no dia-a-dia do Legislativo para nos encontrar e poder oferecer para a cidade aquilo que ela espera da gente.

 

J.E.: Para aquelas pessoas que votaram no senhor com forte desejo de mudança, o que o senhor diria hoje? Esta mudança começou a ocorrer? Quais os maiores desafios para que ela de fato aconteça e tenhamos instituições mais alinhadas com as demandas da coletividade?

 

 

R.M.: Essa transformação que estamos vivendo hoje me dá a certeza de que em algum lugar nós vamos chegar. E será um lugar melhor, porque pior não tem como. Então, ou a gente se enquadra naquilo que realmente é importante, que é a honestidade, o compromisso com o dinheiro público, que é sagrado, o compromisso ético com os valores. A gente tem que trazer de volta o respeito para a Câmara, coisa que hoje em dia está difícil aqui. Quem acompanha a sessão vê que tem gente indo por um caminho que não vale à pena seguir. Então eu acho que há esperança de dias melhores. O que está acontecendo hoje na política municipal, principalmente aqui no Legislativo, de desencontro, de brigas, também faz parte dessa mudança. Estamos terminando o quinto mês de mandato, acredito que em um espaço médio de tempo vamos chegar a uma situação de maior tranquilidade para podermos trabalhar realmente para o povo.

 

 

J.E.: A sua experiência como advogado e na própria OAB o ajudam na condução de um momento tão crítico da política?

 

 

R.M.: Acredito que sim. Como advogado, a gente convive com muitas audiências pesadas. Nesses momentos entendo que temos que ter frieza. E quando você passa a ser um servidor público, como nós somos, você deixa de lado as suas opiniões pessoais para respeitar realmente a Casa, em primeiro lugar, depois os eleitores que estão assistindo, que formam o público que nos elegeu. Ninguém precisa assistir a nenhum show de horrores aqui, neh? Então, às vezes, é mais importante você esperar, pensar e se programar, porque se perdermos o foco que é trabalhar realmente para o público, nós estaremos desrespeitando a casa legislativa, o eleitor… o menos importante aqui são as ideias pessoais. Ninguém está aqui preocupado em saber qual é a sua missão pessoal. O trabalho é muito maior que isso. A palavra dita não volta atrás. Por isso tenho tentado ser comedido, atuar com serenidade, até para trazer tranquilidade também para os colegas. Se todo mundo perder a cabeça aqui o que vai restar? Então esse é o meu temperamento, o meu jeito de ser. Sou uma pessoa ponderada. Aprendi muito com erros também. Ninguém é perfeito e estou aprendendo aqui na Câmara também.

 

 

J.E.: Você integra a base do governo, mas costuma adotar alguns posicionamentos independentes, especialmente nas cobranças que faz ao Executivo da tribuna. Esta será uma constante do seu mandato?

 

 

R.M.: Estar dentro da base aliada é uma missão muito difícil. Às vezes a gente tem que elogiar sem parecer puxa-saco e criticar sem parecer oposição. É nesse fio da navalha que a gente vive. Para alguns, se você elogia demais, passa a ser um puxa-saco do prefeito. Para outros, se você critica de mais, você virou o líder da oposição. E isso acaba atrapalhando o grande objetivo, que é o bem comum. Ninguém está livre de críticas. Eu confio muito no prefeito Rafael Simões. Confio muito no seu grupo político. Somos parceiros, somos aliados, mas isso não impede que eu possa, aqui, ajudá-lo a criticar a administração que ele leva em prol da cidade. Nunca vou fazer nenhuma crítica de forma destrutiva. Dentro do que eu estudo, porque tudo que eu falo aqui eu estudo antes, você pode ter certeza que as críticas que fiz foram todas construtivas.
Você precisa falar a verdade, porque se o vereador não fala, eu fico com a consciência pesada em ser omisso com a população. E nem por isso eu sou da oposição. Eu até comento com outros colegas que a visão ter uma posição de independência para poder criticar em prol do bem comum e em prol da própria administração, mas. Às vezes, você não é julgado ou analisado da forma correto, porque acaba passando a impressão que ou você é oposição ou é situação. Mas eu estou muito tranquilo. Meu trabalho nunca foi questionado pelo prefeito em relação a isso. Nunca foi mudado o comportamento nosso em relação a isso. Eu sou um vereador que não tenho cargo nenhum na Prefeitura. Não pedi nada para o prefeito. Nossa relação é de independência total, de um respeito mútuo e de um apoio grande, porque eu acredito que o prefeito Rafael Simões vai fazer realmente uma cidade muito melhor.

 

 

J.E.: Sendo da base aliada, como estruturou o seu mandato em torno da fiscalização das ações do Poder Executivo?

 

 

R.M.: Eu comecei fiscalizando principalmente os moradores em situação de rua. Uma situação deprimente. Eu vi que, no começo, talvez até por falta de conhecimento dessas pessoas que assumiram a pasta tão importante, o trabalho começou a ficar prejudicado. Então comecei a fiscalizar e a cobrar, na tribuna e na minha página oficial na internet, um posicionamento mais sério, mais contundente. Cobrei também da Polícia Militar mais policiamento para o Centro de Pouso Alegre. quando fomos atendidos de pronto. E você vê que mesmo assim a criminalidade está avançando. Tivemos dois assaltos importantes no Centro no período da manhã, o que ninguém espera… nos Correios e na porta do banco Itaú; cobrei da concessionária de transporte público, a Princesa do Sul, para colocar abrigos em pontos de ônibus descobertos e revitalizar os que estavam com problemas no Cajuru; cobrei melhorias para o bairro Guadalupe.
Você vê que a nossa vida aqui no Legislativo é de cobrança. Se o vereador não cobra, ele passa a ser realmente um bajulador, um puxa-saco. [Por outro lado], a profissão mais fácil é ser vereador da oposição. É tão fácil criticar. Você começa a atirar para todo lado sem compromisso e sem compromisso em construir. Agora, o verdadeiro vereador, o verdadeiro legislador tem compromisso em fiscalizar e estar próximo do prefeito e auxiliá-lo até, de certo modo. Pois se o secretário não está correspondendo à expectativa do povo, a gente tem que dar a nossa visão, tentar enquadrá-lo em uma situação de ajuste para que ele possa contribuir cada vez mais para a nossa sociedade.

 

 

J.E.: Como o senhor estruturou o seu mandato em torno da elaboração de projetos? Já tem algum que considera mais importante?

 

 

R.M.: Essa pergunta é importante. Eu me deparei aqui com uma legislação muito estranha, muito obscura, muito complexa. Hoje nós temos mais de cinco mil leis na cidade. É lei para tudo que você imagina. E aí vem vereador aqui que quer fazer lei de qualquer jeito, porque tem que aparecer seu trabalho. Então eu fiz um pedido ao presidente da Câmara, fui atendido; fiz um pedido ao prefeito Rafael Simões, e também fui atendido. Nós formamos uma comissão e vamos reanalisar todas as leis. Eu sou o presidente dessa comissão. Trata-se de uma comissão mista para assuntos legislativos, que engloba membros do Legislativo e do Executivo. Vamos juntar os dois jurídicos, das duas casas, e vamos colocar na mesa todas as leis. A proposta é revogar as leis que não têm sentido nenhum, emendar aquelas que consigam ser emendadas e revogar tudo aquilo que não tem mais serventia.
O trabalho vai trazer mais segurança jurídica para quem vem investir aqui, vai trazer mais conhecimento para a população municipal sobre a legislação. Também queremos conscientizar os vereadores para que não sejam mais criadas leis inúteis. O trabalho não é só criar lei. O vereador tem uma competência tão pequena, é uma competência residual do poder de legislar e, às vezes, na ânsia de mostrar serviço, acaba fazendo leis totalmente inaplicáveis, leis sem fundamentação, que não vão atender ao anseio popular. Daí acaba inchando nossa prateleira com leis que a população não conhece, que, muitas vezes, nem o vereador lembra que fez. É uma coisa tão importante a lei que a gente tem que realmente valorizar a formação dela.
A previsão é que o trabalho e que o trabalho seja concluído em seis meses. Os trabalhos serão segmentados. As leis serão separadas por assunto para dar dinâmica ao trabalho. Vamos trabalhar com tributos, planejamento, postura, vigilância sanitária… vamos repaginar de forma que nós não vamos esperar a última para começar as mudanças. À medida que os assuntos foram sendo concluídos, vamos apresentar ao plenário para votação.

 

 

J.E.: Em meio à enorme descrença da população com a política e, em especial, com os políticos, como o senhor acredita que os vereadores podem contribuir para resgatar a credibilidade de nossas instituições e figuras públicas?

 

 

R.M.: Todo mundo se decepcionou. Nós criamos ídolos dentro da política. Seguimos várias pessoas importantes que, hoje, estão falando sozinhas. Por isso falei no início sobre o sentimento de mudança que o que era em 2014 já não é mais hoje. O sentimento de 2014 que culminou com o impeachment da Dilma já não é o mesmo sentimento de hoje, no pré-pedido de impeachment de Michel Temer. Hoje nós conseguimos enxergar de forma definitiva que a política inteira está nivelada por baixo, sem que ninguém possa sobressair dentro de um argumento de honestidade, de lealdade, de probidade. Então eu não consigo responder para você, hoje, porque eu acho que não existe essa resposta. Nós temos que trabalhar todo dia sem pensar daqui a um ano, sem pensar daqui a dois anos, e tentar trazer para as pessoas, através do nosso trabalho, das nossas ações. A volta do respeito.
Agora, não vai ser com situações iguais as que a gente está vivendo aqui nessa Câmara que a gente vai conseguir trazer o respeito de volta. Nós precisamos passar por um amadurecimento, por um respeito aos legisladores, aos parlamentares, para que a gente possa dar o exemplo aqui e sair para a rua com a cabeça erguida e falar que o legislativo de Pouso Alegre e que o Executivo de Pouso Alegre podem fazer sua parte. A mudança vai acontecer quando todo mundo mudar. E essa Casa, com 15 vereadores, representa, na verdade, o que as pessoas vivem aí fora vivem. Nós somos reflexo, espelho do que é a sociedade. Então, a hora que todo mundo mudar, essa Casa também vai mudar. E você vê que toda a legislatura está mudando praticamente todos os vereadores, pois a mudança social também é muito grande.
Então, primeira coisa: nós temos que ter respeito com as pessoas, responsabilidade com o dinheiro público, que é sagrado, e, a partir disso, vamos por um tijolo, um segundo tijolo. Vamos tentar realmente representar as pessoas. Temos que realmente trabalhar todos os dias e, com muita humildade, com muita tranquilidade, vestir as sandálias da humildade e olhar para o povo e ver de fato aquilo que eles estão precisando para que o respeito possa voltar, não agora, mas daqui há 10, 15, 20 anos nós tenhamos uma classe política de respeito novamente.